Humor não é sinônimo de unanimidade (embora esse post busque uma xD)
Ainda que o senso de humor seja algo subjetivo, são muitas as tentativas de estudá-lo “objetivamente”. Recentemente, comprei um livro intitulado História do Riso e do Escárnio, que trata especificamente de mostrar o que era padrão de humor em obras literárias de acordo com o período histórico. Por si só, isso dá uma ideia de que os discursos de humor são discursos como outros quaisquer, que devem ser compreendidos de forma contextual. E, principalmente, o que fazia as pessoas rirem na Idade Média provavelmente não fará rir quem vive no século XXI.
Esta mesma relação é válida não apenas em termos temporais. Cada indivíduo tem uma história de vida e, portanto, singularidades. É por isso que eu fico extremamente chocada com alguns argumentos que emergem dos defensores do “politicamente incorreto”. Um deles é de que vivemos numa democracia e que a liberdade de expressão dos humoristas deve ser preservada. Só que há uma contradição nisso. Porque ao mesmo tempo em que o humorista deve ter liberdade para se expressar, quem ouviu a piada não tem. Que liberdade de expressão é essa que só vale para uns e não para outros? Qualquer pessoa tem pleno direito de não achar engraçado um comentário ou piada. E digo isso porque, às vezes, fica implícita a obrigatoriedade de se compartilhar aquele momento supostamente hilário com todos.
Uma espécie de ditadura do riso. Quem não acha engraçado é uma pessoa sem senso de humor, que leva a vida a sério ou que simplesmente não entendeu a piada. Então, você simplesmente escolhe ficar calado (a) em relação a essas “acusações”, com um riso sarcástico no canto da boca. Ou pode enveredar por caminhos mais espinhosos e responder algo como: “Meu senso de humor é refinado. O que me causa riso deixaria você confuso ou muito chocado.” Estaria sujeito, assim, a somar mais uma acusação: a de pedante e arrogante.
Humor não tem a obrigatoriedade de ser politicamente correto. Há ótimas peças de humor que não se enquadram como “certinhas”: Twin Peaks (série), Singapore Sling (filme), Surplus (documentário), Clue (filme), Gosford Park (filme), Sorrisos de uma Noite de Amor (filme). Até mesmo produções culturais muito trágicas têm aqui e acolá momentos de humor voluntários ou não. Para não me taxarem de hermética, cito a telenovela mexicana A Usurpadora. E, não, não me refiro ao que as pessoas chamam de “má produção” ou “erros”. Essa novela contém diálogos extremamente hilários. Quem nunca riu de uma resposta incisiva que alguém deu em A ou B? Eu vivo rindo desse tipo de coisa. A Usurpadora tem uma boa quantidade de falas assim.
Não consigo rir do humor que não se renova. Piadas que ofendem minorias, que sequer problematizam a questão das minorias (sim, isso é possível no humor. Humoristas competentes fazem isso) são piadas que estão aí desde que o cão era menino. Sinto muito, mas eu prefiro ver o Chaves. E não é menosprezo com o programa. Chaves é um dos melhores programas de humor da TV latino-americana. Quem disse que não pode haver estereótipo? Seu Madruga que representa o desemprego generalizado nos anos 70 e 80 na América Latina. Uma situação triste, mas tratada com bom humor, sem se descuidar de um problema social grave.
Aí eu penso que esses humoristas stand-up e subcelebridades do Youtube, no fundo um bando de chorões, mimados, criados a pêra e ovomaltine, deveriam aprender a fazer humor. Não sei o que é mais vergonhoso: ficar de mimimi por causa de críticas ou as panelinhas, uns defendendo os outros dos “moralistas”, dos “politicamente corretos”.
Regra básica: para aparecer na mídia é preciso estar preparado para os aplausos e os tomates podres. Se as pessoas reclamam e não vêem graça no seu humor, a culpa é sua. Não das pessoas. E aplico a mesma máxima da interlocução em geral. Se você não foi compreendido, repense a maneira como codifica sua mensagem. Não culpe quem não entendeu você.
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Isto deve ter haver com o movimento do “politicamente correto”, por assim dizer.
Essa é a impressão que fica após assistir os filmes/séries vindas dos EUA. Lá, sabe-se, é um país bastante moralista. Daí surge um pequeno grupo de humorista, que, para mostrar que não se “rende” à essa corrente, faz todo o tipo de estripulia imaginável. Mas é de um jeito tão bestinha que ababa ficando bem mais intolerante do que “O Todo Poderoso Maligno Politicamente Correto”.
Para mim, parece uma troca de alfinetadas. Que não leva a nada.