Passado o medo inicial, como o primeiro mês do ano está chegando ao fim, acredito que não corremos mais o perigo de uma catástrofe ou algo do tipo. Então, seguimos com nossa programação normal. O primeiro post do ano é de um livro que li ainda ano passado, mas que gostei muito.

Ao contrário do que se pensa, ragtime não é um gênero musical, mas um modo de tocar piano. Surgiu no final do século XIX, tendo como um de seus maiores expoentes Scott Joplin. Os rags seriam um dos muitos ingredientes que posteriormente formariam o jazz.

Mas o ragtime é mais do que isso. Com seu ritmo dinâmico, serve como trilha sonora para uma época, início do século XX com todas as mudanças sociais, culturais, tecnológicas e científicas em uma nação, os Estados Unidos. Ora, os rags foram desenvolvidos pelos músicos americanos negros. Nada mais simbólico. Então, não há metáfora melhor que Doctorow poderia ter utilizado para falar sobre a constituição da cultura estadunidense do que esta.

Enquanto eu lia o texto, meus olhos brilhavam. Porque aquilo deve ter dado muito trabalho de escrever. Às vezes, eu parava e relia em voz alta. Porque, minha gente, é um romance musicado. Com períodos curtos e diretos, às vezes um mais longo, mas sempre ritmados. Uma delícia de ler.

A história segue uma típica família norte-americana da época, em que os personagens são denominados como Papai, Mamãe, Irmão Mais Novo de Mamãe, dentre outros. Entretanto, apresenta outros núcleos como o de Tateh e sua família, além de personagens reais, como Freud e Houdini. Em algum momento, direta ou indiretamente, esses personagens irão se relacionar.

Em cada um desses núcleos, Doctorow explora alguma questão: dos imigrantes, dos negros, das mulheres, o patriotismo. O livro trabalha com a contradição de uma cultura dinâmica, do “progresso”, mas que ao mesmo tempo é segregacionista e injusta. Falando assim, parece tosco. Mas o livro não é. Leia.


O que mais gosto na obra de Agatha Christie são as peças.  Testemunha de Acusação e A Teia da Aranha são duas das melhores peças que já li porque ambas se detém em aspectos, sobretudo, psicológicos. Há mais drama do que tramas mirabolantes nessas duas histórias, embora elas tenham linhas bem distintas: enquanto que A Teia da Aranha apresenta uma veia mais cômica, Testemunha de Acusação oferece uma trama mais tensa, que Billy Wilder transpôs tão bem para o cinema.

Então, confesso que esperava algo nessa linha quando comecei a ler Café Preto, mas trata-se apenas de outra história boba da Agatha envolvendo espionagem, fórmulas secretas, personagens estrangeiros (onde a escritora aproveita para destilar sua xenofobia) e por aí vai. Embora sejam muitas as obras em que desenvolve temática semelhante, poucas são as que consegue não ser ridícula.

Em Café Preto, um cientista recorre a Hercule Poirot, pois desconfia que alguém está tentando roubar uma fórmula secreta desenvolvida por ele. Suas suspeitas recaem sobre a própria família. Ao lado de Hastings (seu Watson), Poirot segue à mansão do ricaço, mas quando chega ao local descobre que seu cliente foi assassinado e a fórmula, roubada.

Para quem já leu dois livros de Agatha Christie, digo que o esquema é o mesmo: entrevistas com os suspeitos, investigações acerca da limpeza da casa, massa cinzenta, Hastings fazendo as mais absurdas suposições, etc. O livro é chato. E é fácil descobrir o assassino (e ladrão) antes do desfecho. Digo que a única coisa legal são as mulheres da história: a tia tagarela, a prima moderna com suas frases de efeito e a esposa fatal e gostosa. Mas é só isso mesmo. Leitura descompromissada e subliteratura, como qualquer outro livro da Agatha.


Leôncio mostrando quem manda...

A Escrava Isaura é um daqueles livros que podem ser lidos com os mais diversos fins. Se você é uma pessoa daquelas de um romantismo rasgado, vai adorar. Especialmente os diálogos entre Álvaro e Isaura, o casalzinho protagonista. Se tiver um senso de humor ácido, rirá muito, assim como eu. E, ainda, se quiser fazer um estudo das raízes do racismo “maquiado” no Brasil, é um excelente livro também.

Isaura é uma escrava que teve a “sorte” de nascer branca. Por conta disso, foi acolhida como filha pela senhora da casa, após a morte da mãe. Por isso, além das tarefas que toda escrava sabe desempenhar, ela tem excelente português, toca piano, dentre outras prendas. Seria liberta, mas sua senhora morreu antes de fazer isso. E o marido dela, o comendador Almeida, não tem a menor intenção de libertá-la. Ao deixar seus bens nas mãos do filho, Leôncio, este mostra menos interesse em alforriar Isaura.

Leôncio é o personagem menos raso da história e, por isso, o mais interessante. É descrito como um filhinho de papai daqueles tempos. Um sujeito folgado que nunca quis estudar, tudo o que fez foi aproveitar a dinheirama do pai, caindo na farra todas as noites com mulheres e bebidas (êta vida boa!). Ao retornar ao Brasil, casa-se com Malvina, por conveniência. Mas é por Isaura que nutre paixão e desejo. E põe desejo nisso. Sempre que a escrava encontra-se sozinha, lá vai ele assediá-la. Se escrito nos tempos de hoje, A Escrava Isaura seria pornográfico. O nome já contribuiria muito nesse sentido.

"Vamos!"

A questão é que Isaura, com a ajuda do pai, acaba fugindo da fazenda. E, convenientemente, conhece e se apaixona por um rapazinho abolicionista (bonito e podre de rico, como não poderia deixar de ser). Essa é a historinha. Se quiser saber o resto, leia.

De minha parte, achei o livro divertidíssimo. É uma obra curta. Dá para ler em um dia, no máximo, dois. Alguns trechos são engraçados, como esse que qualifica as ações de Leôncio:

Para entrarmos no mistério dos planos atrozes e ignóbeis, das satânicas maquinações de Leôncio… (grifo meu)

Ou ainda esse em que Isaura se penitencia por ser gostosa:

Meu Deus! Meu Deus!… já que tive a desgraça de nascer cativa, não era melhor que tivesse nascido bruta e disforme, como a mais vil das negras, do que ter recebido do céu estes dotes, que só servem para amargurar-me a existência?

Leitura divertida e descompromissada. O livro está em domínio público. :)


Ainda que o senso de humor seja algo subjetivo, são muitas as tentativas de estudá-lo “objetivamente”. Recentemente, comprei um livro intitulado História do Riso e do Escárnio, que trata especificamente de mostrar o que era padrão de humor em obras literárias de acordo com o período histórico. Por si só, isso dá uma ideia de que os discursos de humor são discursos como outros quaisquer, que devem ser compreendidos de forma contextual. E, principalmente, o que fazia as pessoas rirem na Idade Média provavelmente não fará rir quem vive no século XXI.

Esta mesma relação é válida não apenas em termos temporais. Cada indivíduo tem uma história de vida e, portanto, singularidades. É por isso que eu fico extremamente chocada com alguns argumentos que emergem dos defensores do “politicamente incorreto”. Um deles é de que vivemos numa democracia e que a liberdade de expressão dos humoristas deve ser preservada. Só que há uma contradição nisso. Porque ao mesmo tempo em que o humorista deve ter liberdade para se expressar, quem ouviu a piada não tem. Que liberdade de expressão é essa que só vale para uns e não para outros? Qualquer pessoa tem pleno direito de não achar engraçado um comentário ou piada. E digo isso porque, às vezes, fica implícita a obrigatoriedade de se compartilhar aquele momento supostamente hilário com todos.

Uma espécie de ditadura do riso. Quem não acha engraçado é uma pessoa sem senso de humor, que leva a vida a sério ou que simplesmente não entendeu a piada. Então, você simplesmente escolhe ficar calado (a) em relação a essas “acusações”, com um riso sarcástico no canto da boca. Ou pode enveredar por caminhos mais espinhosos e responder algo como: “Meu senso de humor é refinado. O que me causa riso deixaria você confuso ou muito chocado.” Estaria sujeito, assim, a somar mais uma acusação: a de pedante e arrogante.

Humor não tem a obrigatoriedade de ser politicamente correto. Há ótimas peças de humor que não se enquadram como “certinhas”: Twin Peaks (série), Singapore Sling (filme), Surplus (documentário), Clue (filme), Gosford Park (filme), Sorrisos de uma Noite de Amor (filme). Até mesmo produções culturais muito trágicas têm aqui e acolá momentos de humor voluntários ou não. Para não me taxarem de hermética, cito a telenovela mexicana A Usurpadora. E, não, não me refiro ao que as pessoas chamam de “má produção” ou “erros”. Essa novela contém diálogos extremamente hilários. Quem nunca riu de uma resposta incisiva que alguém deu em A ou B? Eu vivo rindo desse tipo de coisa. A Usurpadora tem uma boa quantidade de falas assim.

Não consigo rir do humor que não se renova. Piadas que ofendem minorias, que sequer problematizam a questão das minorias (sim, isso é possível no humor. Humoristas competentes fazem isso) são piadas que estão aí desde que o cão era menino. Sinto muito, mas eu prefiro ver o Chaves. E não é menosprezo com o programa. Chaves é um dos melhores programas de humor da TV latino-americana. Quem disse que não pode haver estereótipo? Seu Madruga que representa o desemprego generalizado nos anos 70 e 80 na América Latina. Uma situação triste, mas tratada com bom humor, sem se descuidar de um problema social grave.

Aí eu penso que esses humoristas stand-up e subcelebridades do Youtube, no fundo um bando de chorões, mimados, criados a pêra e ovomaltine, deveriam aprender a fazer humor. Não sei o que é mais vergonhoso: ficar de mimimi por causa de críticas ou as panelinhas, uns defendendo os outros dos “moralistas”, dos “politicamente corretos”.

Regra básica: para aparecer na mídia é preciso estar preparado para os aplausos e os tomates podres. Se as pessoas reclamam e não vêem graça no seu humor, a culpa é sua. Não das pessoas. E aplico a mesma máxima da interlocução em geral. Se você não foi compreendido, repense a maneira como codifica sua mensagem. Não culpe quem não entendeu você.


Jazz é “música de negros”. Essa é uma ideia tão difundida que já virou senso comum. Mas não iniciei o texto com a intenção de negá-la ou desconstruí-la.  Contudo, não muito difundido é o papel dos judeus nesse cenário musical. Principalmente durante o furor das big bands. Benny Goodman, conhecido como King of Swing, era judeu. E, no meu entender, ele e Gene Krupa são dois dos melhores músicos brancos daquela época. Mas isso não tem nada a ver com a resenha. Desculpem, pessoas. :(

A questão é que Jazz Band na Sala da Gente traz um cenário muito peculiar: Segunda Guerra Mundial. Brasil. Uma família, pai judeu e mãe italiana, que tem negócios funerários, mas cujo pai tem uma jazz band. Jazz band, funerária. Funerária, jazz band. E este cenário nos é apresentado por um garoto de seis anos. Eduardinho, que leva o mesmo nome do pai, é um menino que adora música e não entende a repulsa da mãe pela Pinhal Jazz, banda do pai. Também não compreende porque pessoas de toda a cidade chegam à sua casa chorando e pedindo ajuda com tanta frequência.

Essa é a Pinhal Jazz, galëre. Eduardo Staut é o segundo da direita para esquerda, o flautista.

O livro traz muitas situações engraçadas, mas em determinados momentos se torna repetitivo e tende a cair na monotonia. O tom racista e histérico da mãe pode soar engraçado algumas vezes, ofensivo em outras tantas. Nem o marido judeu escapa de ser diminuído. O que pode atenuar esse sentido negativo é a contextualização. O desfecho não deixa de ser trágico e irônico.

Por fim, o livro não é puramente ficcional. A Pinhal Jazz realmente existiu. Eduardo Staut também. O livro é escrito por Alexandre Staut, neto do músico, mas com toques ficcionais.




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